Trigo Limpo

Pela enésima vez, os funcionários públicos criam riqueza! Pela enésima vez, os funcionários públicos não vivem da riqueza produzida pelo privado!

Estes são apenas dois dos muitos mitos que envolvem os funcionários públicos. Vamos desmontá-los com dois exemplos.

Para começar, é óbvio que os funcionários públicos (ex.: médicos do SNS) contribuem para o PIB, já que no método de cálculo do PIB na ótica do rendimento aparecem os salários. Citando o INE:

Ótica do rendimento: o PIB corresponde à soma das remunerações dos empregados, dos impostos sobre a produção e importação líquidos de subsídios e do excedente bruto de exploração.

Como o PIB mede a produção de riqueza, então é óbvio que os funcionários públicos produzem riqueza(a).

Exemplo 1: a riqueza produzida pelos serviços públicos

Peguemos num país com saúde pública e privada (ex.: Portugal). Consideremos um paciente que é atendido no privado e que quando chega ao pagamento, por algum motivo, a pessoa do lado decide pagar. Este ato médico conta para o PIB, apesar de não ter sido o próprio a pagar? Porque não? Não faz qualquer diferença quem paga. Consideremos agora um paciente no público. Esse paciente não paga no ato, pois é o estado quem o faz. Mas o estado fá-lo através da receita fiscal, que nada mais é que o dinheiro que outras pessoas ganharam e “deram” (são forçadas por lei) ao estado. Isso significa que temos exatamente a mesma situação do exemplo do privado em que alguém que não o paciente paga. Se o primeiro caso contribui para o PIB e portanto para a produção de riqueza, o segundo terá de contribuir também. O médico público não vive à custa dos contribuintes, não mais do que o médico privado vive à custa dos clientes.

Exemplo 2: os impostos pagos pelos funcionários públicos

Consideremos uma economia simples, com apenas duas pessoas. Uma trabalha no privado e outra no público. A remuneração do funcionário público é integralmente oriunda da receita fiscal do estado, E. Para simplificar, existe apenas IRS e é uma flat tax (Olá IL!) de 50% (Adeus IL!). Então, se o privado ganha R_Priv, quanto ganha o funcionário público, R_Pub? É simples:

E = 0.5 x R_Priv + 0.5 x R_Pub

Como E = R_Pub, temos:

R_Pub = 0.5/(1-0.5) x R_Priv = R_Priv

Se o trabalhador privado tem um rendimento bruto de 1,000€, o trabalhador público tem um rendimento bruto de 1,000€ também, e temos um PIB de 2,000€. O facto de que metade do rendimento do funcionário público vem dos seus próprios impostos não é em nada diferente do facto de que metade do rendimento do empregado privado vem das suas compras a ele próprio. Assim, os impostos que o trabalhador público paga correpondem ao pagamento dos serviços públicos que usufrui. Da mesma maneira, os impostos que o trabalhador privado paga não são subsídios ou riqueza extraída ao trabalhador privado para dar ao trabalhador público, mas o pagamento dos serviços que o trabalhador público lhe fornece. A única diferença é que a utilização de serviços públicos tende a ser independente do pagamento que se faz.

Conclusão

Com estes dois exemplos simples, podemos ver que:

Em suma, e algo que devia ser óbvio, os empregados públicos não vivem à custa dos empregados privados.


(a) Note-se que riqueza pode ser produzida e não contabilizada no PIB. Por exemplo, cozinhar em casa vs ir ao restaurante. Ambos produzem, mas apenas a segunda é contabilizada no PIB. Outra curiosidade em relação ao PIB é que também engloba atividades ilegais, como a prostituição, tráfico de drogas, etc.